Encontro histórico reuniu na Sociedade Rural Brasileira as principais instituições envolvidas nas negociações para a almejada constituição do Consecitrus

Na sexta feira, 18 de novembro, recepcionados pelo Presidente Cesário Ramalho da Silva, e pelo Diretor de Citricultura, Gastão Crocco, representantes de parcela significativa da agroindústria da CITRICULTURA reuniram-se na sede da Sociedade Rural Brasileira em encontro histórico. Histórico por reunir, sob a coordenação do ex-Secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, João de Almeida Sampaio, as principais instituições envolvidas nas negociações para a almejada constituição do Consecitrus, para dialogar com entidades representativas de produtores, Sindicatos de Produtores Rurais, Associações de Citricultores e a produtores independentes, passos esses dados na direção do “ConseNcitrus”.

 

Enfatizando a importância do evento, compareceram os dirigentes das principais indústrias de suco do país, Cláudio Ermírio de Morais pela Citrovita, José Henrique Cutrale pela Cutrale e Kenneth Geld pela Dreyfus, bem como Christian Lohbauer, representante da CitrusBr. Pela produção estavam a anfitriã Rural e a FAESP, representada por Marco Antonio dos Santos.

 

Em sua saudação aos produtores presentes, o diretor Gastão Crocco afirmou que abria-se ali um espaço para debates e para discordâncias. Não houve inibições, foi preservado o respeito. De tudo poder-se-ia resumir o que segue.

 

O Consecitrus, ainda um esboço, procura uma fórmula dinâmica de relacionamento, de adesão voluntária, que evolua e adapte-se ao longo do tempo. Pelo exercício permanente e pelo diálogo sobre gargalos de eficiência que, se deixou de existir no passado, é um pressuposto de sobrevivência do setor para o presente e para o futuro, descobrir-se-á o mecanismo capaz de promover ganhos de eficiência, bem como de contribuir para melhor alocação de recursos.

 

Em que pesem os apelos para que o caminho seja feito olhando para frente, esquecendo-se do retrovisor, é inescapável, para a maioria dos produtores, que chegamos ao ponto em que estamos, bem ou mal, trilhando o passado. Contudo, a reunião dos elos da cadeia produtiva em torno do Consecitrus objetiva a correção de rumos e rota do caminho que vem do passado e já não aproveita a ninguém. Apostando na transparência, na restauração da relação honesta e franca, o Consecitrus abre-se como uma oportunidade de associação em que a adesão é voluntária, para quem quiser entrar e para quem quiser permanecer, para escolher entre a agenda de seguir em frente, resgatando a confiança, criando e partilhando valores, ou ficar na histórica desconfiança paralisadora. Alguém lembrou que o mundo mudou e os desafios, hoje, são mais complexos para todos. E como ficou caro e complexo produzir laranja.

 

Vivendo mudanças paradigmáticas em seu tempo, o economista John Maynard Keynes asseverou e perguntou: “quando os fatos mudam, eu mudo de opinião. E o senhor?”. Este parecia ser o questionamento que todos, indústria e produtores, se faziam. O Consecitrus está propondo uma reorganização técnica do setor, mediante o estímulo ao diálogo e o fomento à produção de informações científicas confiáveis, capazes de gerar eficiências. A partir disto, oferecerá parâmetros, referências, jamais imposições sobre os temas de interesse da cadeia produtiva e dos consumidores de suco de laranja. Campanhas de marketing para incrementar o consumo de suco de laranja, atuação política para destinação de recursos públicos ao financiamento de estoques, aquisição de equipamentos, etc., que possam reduzir custos e aumentar eficiências dos elos da cadeia produtiva e, por consequência, aliviar a tensão entre os mesmos, são meros exemplos do muito que pode ser feito com o peso de um setor econômico capaz de identificar e promover seus interesses institucionais.

 

A LEC – Linha Especial de Crédito pelo qual o governo federal garantiu um preço mínimo para a caixa de laranja em 2010 – foi apontada por muitos como um primeiro experimento e fruto do caminho rumo ao Consecitrus. Confirmação de que não se trata de discurso vazio, mas de que o debate resulta em ações viáveis e úteis.

 

Numa síntese de manifestações por vezes emocionadas de produtores que fizeram uso livre da palavra, o que se espera é que o Consecitrus consiga promover o diálogo transparente e leal entre os membros da cadeia produtiva, tendo sido lembrado que transparência, quase sinônimo de honestidade, não aceita flexibilização; que promova o consumo de suco e de laranja; que agregue valor aos produtos da citricultura e aloque melhor os recursos disponíveis, evitando desperdícios e outras ineficiências que tanto oneram a  cadeia produtiva e os consumidores, num pleito consensual de citricultores.

 

Ao final, a máxima de que a “necessidade obriga” emergiu no espírito de todos, reforçando a frase de Guimarães Rosa sempre citada por Gastão Crocco: “o sapo pula não por boniteza, mas porém, por precisão”.  Também, que o consenso instalado é o de querer-se um lugar melhor. Que a tal lugar chega-se pela lealdade ao reconhecer e explicitar os interesses divergentes, mas, também, os objetivos comuns e institucionais, pelos quais é preciso firmeza na adoção e repartição de responsabilidades.

 

Para garantir que os valores que informam esta disposição à união serão captados adequadamente, a Rural contratou o escritório Lilla, Huck, Otranto, Camargo Advogados. Há 5 meses, por seu turno, a equipe do consultor Alexandre Mendonça de Barros faz o trabalho técnico de desenvolver metodologia econômica para suporte das atividades do Consecitrus.

 

Contando com o otimismo de alguns, no primeiro semestre do ano de 2012 talvez possamos começar um exercício de implementação do Consecitrus, mais uma vez à moda de Guimarães Rosa, dizer que “o real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Por isso e para tentar a salvação da lavoura, produtores que tendem à participação no Consecitrus, saíram pensando que “eu só preciso de pés livres, de mãos dadas, e olhos bem abertos”! Numa tradução livre para o “laranjês”: andar pra frente com transparência.

 

 

Fonte: Sociedade Rural Brasileira

Por Paulo Sader (citricultor e colaborador da Rural)


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