A mais difícil de todas as safras

Há uma máxima entre aqueles que estão no setor há muito tempo: “não há um anosafra de laranjas como o outro”. A atual, especificamente, está se superando, tamanhas são as dificuldades enfrentadas.

Os primeiros sinais de que a temporada seria diferente foram dados pela florada do ano passado. O florescimento das laranjeiras, nos meses de agosto e setembro de 2019, foi muito bom. No entanto, um veranico acompanhado de calor intenso derrubou muitos frutinhos, os chamados “chumbinhos”. Os frutos se desenvolveram até certo tamanho, mas foram derrubados pelo calor excessivo. As regiões mais ao sul do estado de São Paulo tiveram chuvas em novembro e uma nova florada ocorreu.

Florada em variedade Natal no Sudoeste de São Paulo, em agosto de 2020

Acrescente-se, que um pouco antes da colheita começar veio a pandemia da COVID -19. Como dar segurança a imensidão de trabalhadores que chegariam às fazendas, muitos deles vindo dos estados do nordeste do país? Citricultores se mobilizaram tomando cuidados extraordinários visando a preservação da saúde dos envolvidos na colheita e dos outros colaboradores, de outros setores das propriedades.

Assim, a safra atual tem sido de grandes surpresas e tem apresentado desafios incomuns aos produtores do cinturão citrícola brasileiro. As principais consequências são apresentadas a seguir:

1. O período sem chuvas, a partir de maio deste ano até este último mês de outubro, foi dos mais extensos já registrados no estado de São Paulo, conforme gráficos e tabelas a seguir. Além da seca, foram registradas temperaturas máximas muito altas, mesmo à noite, causando perdas consideráveis de peso e qualidade das frutas e de estresse elevado às plantas. O déficit hídrico foi muito expressivo em todas as regiões. Esses fatores climáticos causaram relevante diminuição do volume de frutas produzidas em toda área produtiva. As perdas estão mais acentuadas no norte do estado de São Paulo e Triângulo Mineiro, regiões mais quentes e secas. No entanto, mesmo mais ao sul do estado, as perdas foram acima do normal. A primeira estimativa de safra divulgada pela Fundecitrus, em maio deste ano, trouxe um volume de 287,8 milhões de caixas, 25% menor do que a safra anterior (2019/2020). O que se vê no campo é um volume de laranjas bem abaixo desse número. A percepção comum entre técnicos e citricultores consultados é de o número final deverá ficar abaixo de 250 milhões, talvez bem abaixo disso, a ver.

2. Período sem chuvas e temperaturas muito acima da média trouxeram como consequência pomares extremamente murchos - plantas chegaram a morrer no norte do estado em pomares sem irrigação. Outro agravante deste ano foi a escassez de água para irrigação. Há propriedades que possuem estrutura instalada de irrigação, no entanto, não tem disponibilidade de água suficiente para atender as necessidades das plantas.

Foto tirada em meados de outubro de 2020 no município de Jales, no norte do Estado de São Paulo.

 

Fonte: Prof. Paulo Sentelhas; Systema Agrymax (www.agrymet.com.br/agrymax)

3. Em função das floradas ocorridas em meses não tradicionais (dezembro e janeiro) nas regiões central, sul e sudoeste do estado de São Paulo, há uma grande quantidade de frutos “verdes” misturados aos maduros. Isso traz uma maior dificuldade na colheita que tem que ser realizada em, no mínimo, dois tempos diferentes, aumentando o custo de produção para os citricultores. 

Laranjas em vários estágios de maturação, em julho de 2020.

4. . Essa mistura de frutas com diferentes maturações, prejudicam a qualidade dos sucos, especialmente pela maior quantidade de limonin presente nas cascas verdes das laranjas. Por outro lado, nas regiões mais ao norte do cinturão citrícola, os frutos estão amadurecendo muito mais rápido do que o normal, produzindo sucos com ratio (relação entre a quantidade de açúcares – Brix e acidez) muito mais alto que a média para o período do ano. O rendimento industrial tem sido melhor esse ano do que nos dois anos anteriores, ao menos até a essa altura da safra (novembro de 2020).

5. Como consequência adicional aos eventos climáticos desse ano veremos um aumento dos efeitos do HLB ou greening. Os sintomas da doença, como a queda precoce de frutos e a baixa produção, costumam se expressar de forma mais contundente quando há déficit hídrico. Além disso, o psílideo, vetor da doença, apresentou índices muito altos mesmo no inverno, indicando que teremos um maior número de plantas infectadas nos próximos anos. Isso ocorreu provavelmente pelo clima mais quente e vegetações desuniformes das plantas.

A próxima safra, 2021/22

As regiões mais ao norte só floresceram após as chuvas que caíram nos últimos dias de outubro. Embora ainda seja cedo para prever, essa florada tardia não deverá ter bom pegamento, já que as chuvas deste mês de novembro não se firmaram e ainda estão abaixo das médias para o período. Além disso, os chumbinhos estarão ainda muito pequenos nos períodos de temperatura mais elevadas que ocorrem no alto verão. Como agravante tem-se ainda a grande perda de folhas ocorrida no período de seca recente. Esse último fator irá limitar a próxima safra, já que a planta não terá condições de fornecer os metabólitos necessários a um vingamento expressivo de frutos. Não é de se esperar uma boa safra 21/22 para essas regiões.

Nas regiões mais ao sul, que sofreram um menor déficit hídrico, a florada veio no período normal, entre agosto e setembro. Contudo, as chuvas irregulares e temperaturas altas do inverno (quadro 2), após a floração, têm preocupado produtores. Também nessa região não deverá haver uma grande safra, pelo segundo ano seguido.

A experiência nos mostra que as safras que vem após um ano tão irregular como ess

e que estamos vivendo, também não costumam ser boas.

Fonte: Prof. Paulo Sentelhas; Systema Agrymax (www.agrymet.com.br/agrymax)

Preço de suco deve subir

Como citado, embora seja comum na citricultura a alternância de safras, ou seja, colheitas menores seguidas de colheitas maiores, os fatores climáticos apresentados nesse artigo deverão resultar em duas safras “pequenas” em anos seguidos, a atual e a próxima. 

Dessa forma a indústria brasileira deve processar menos laranjas por duas safras seguidas. Essa diminuição de oferta, aliada à demanda crescente de sucos em tempos de pandemia, deve provocar aumento de preços dos sucos no mercado internacional.

Mauricio Mendes é engenheiro agrônomo, consultor e produtor de laranjas. Sócio Fundador da Agriplanning Consultoria. É também membro do GCONCI.


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