Plantação de seringueira como parte da Reserva Legal

 

Com vantagens econômicas, sociais e ambientais, a heveicultura insere-se no contexto de agricultura sustentável

 

 

A seringueira é principal fonte comercial de borracha natural no mundo e a borracha é a matéria-prima estratégica para mais de 40.000 produtos. O Brasil, que até a metade do século XX detinha o monopólio da produção mundial de borracha natural, hoje responde por apenas 1% em termos globais e produz apenas 30% do seu consumo. Em nível mundial, o consumo de borracha natural tem crescido mais do que a capacidade de produção dos seringais. De acordo com estimativas, a demanda de borracha natural para 2020 é da ordem de 9,71 milhões de toneladas, contra uma produção de 7,06 milhões de toneladas. Estima-se, ainda, que em 2035, seguindo-se a curva de oferta e demanda, haverá um déficit de 5,0 milhões de toneladas de borracha.

 

Do ponto de vista ambiental, o cultivo da seringueira é considerado altamente benéfico, uma vez que seu  comportamento se assemelha ao de uma mata nativa, acumulando menos perda de solo por hectare e menor exportação de nutrientes em comparação com outras importantes culturas. A seringueira exige um menor uso de mecanização e insumos para seu cultivo quando comparada com a maioria das culturas anuais, constituindo um tipo de manejo extremamente desejável. Trata-se de uma cultura que protege o solo e os mananciais, reduzindo o impacto do sol, chuvas e ventos. Quando se compara o balanço hídrico de um seringal com uma floresta contígua, verificam-se vantagens no equilíbrio do balanço hídrico do seringal devido ao maior armazenamento de água no solo, maior drenagem profunda e menor evapotranspiração anual. Tais resultados de estudos  indicam que, dependendo da extensão do seringal os mananciais próximos poderão ser melhor supridos e que esta cultura pode suportar maiores períodos de seca durante o ano. Portanto, a heveicultura é considerada reflorestadora e além de contribuir com a conservação dos recursos naturais, pode ser utilizada para a recomposição da Reserva Legal, amparado por lei.

 

Segundo o Código Florestal, Reserva Legal é a área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada a de preservação permanente (APP), necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas. De acordo com a legislação ambiental do Estado de São Paulo, o proprietário ou o titular responsável pela exploração de imóvel rural com área recoberta por vegetação nativa na reserva legal em extensão inferior ao percentual mínimo exigido (20% da área da propriedade) pode optar por recompor a vegetação no próprio imóvel por meio do plantio de espécies arbóreas exóticas, intercaladas com espécies arbóreas nativas de ocorrência regional ou pela implantação de Sistemas Agroflorestais (SAF). Neste caso, a seringueira poderá ser utilizada para tal finalidade e ser explorada comercialmente, desde que respeitando alguns dispositivos da legislação, como o plantio em até metade da área e fazê-lo no prazo máximo de oito anos.

 

 

Quanto ao aspecto técnico o espaçamento tradicional da seringueira pode ser rearranjado em linhas duplas, permitindo alta densidade de árvores nativas e seringueira por hectare e,  consequentemente, grande cobertura do solo. Porém, findo o ciclo de produção do plantio inicial não é permitido o replantio de espécies arbóreas exóticas na reserva legal, daí a grande vantagem da seringueira, pois o seu ciclo pode se estender por mais de 30 anos e, ainda, há possibilidade do aproveitamento de madeira nobre no final do ciclo. No contexto edafoclimático, o estado de São Paulo possui um potencial de área de cerca de 14 milhões de hectares altamente favoráveis de solos leves e profundos, e aptos ao cultivo da seringueira, além do caráter sazonal do clima, possibilitando rápido crescimento das árvores e escape à principal enfermidade denominada “mal-das-folhas”. Do ponto de vista econômico, atualmente é uma das atividades que melhor remunera o produtor, com renda mensal garantida por mais de 30 anos, valorização da propriedade e madeira nobre no final do ciclo. Devido às grandes vantagens econômicas, sociais e ambientais, a  heveicultura insere-se perfeitamente dentro do contexto de agricultura sustentável, fazendo cumprir a função social e ambiental da terra por meio de geração de empregos e notável uso dos recursos produtivos.

 

 

Eng. Agr. Juliano Quarteroli Silva

Escritório de Desenvolvimento

Rural de Limeira/CATI/SAA

e-mail: quarteroli@cati.sp.gov.br

 

(matéria veiculada na Revista Citricultura Atual, dez/2010)

 


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